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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Banco Central e Prefeitura do Rio: desrespeito a projeto de preservação

Há apenas quatro dias, após a Cidade do Rio ter recebido o título de Paisagem Cultural da Humanidade, o prefeito sanciona lei municipal que, a pedido do Banco Central, desrespeita a regra geral de preservação para a região portuária do Rio, criada na década de 80!

Hoje, foi publicada, no Diário Oficial do Município, por sanção do prefeito Eduardo Paes, a lei complementar 123/2012, que concede ao BC mais quatro andares para a construção do seu novo prédio na Área Especial Interesse Urbanístico da Região do Porto do Rio de Janeiro,  considerada de interesse para a "Proteção do Ambiente Cultural dos Bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo - APAC DE SAGAS". 

Tesouros arqueológicos têm sido
encontrados nas obras da região do Porto
E mais, em um terreno com ruínas arqueológicas importantíssimas que, ao que parece, não foram devidamente tratadas e preservadas! 

Um pouquinho (de desrespeito à regra geral) não faz mal ?


terça-feira, 12 de junho de 2012

Perimetral: alternativas à demolição

A demolição do viaduto da Avenida Perimetral, no Rio de Janeiro, foi objeto de debate, ontem na Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro (SEAERJ).  Pela primeira vez, um tema de tal relevância foi objeto de uma discussão técnica.

A unanimidade das vozes lá presentes foi contra a a demolição dessa obra de engenharia viária de grande porte feita, há menos de cinquenta anos, com recursos públicos significativos.

Ficou certo que pontos de vista estéticos não justificam a demolição do viaduto da Perimetral, cujo papel é estruturante no sistema viário da cidade do Rio e de sua Região Metropolitana.

A demolição da Perimetral, que tem, repito, pouco menos de 50 anos, e que produzirá um enorme volume resíduos, será apenas para trocar quatro vias rodoviárias por duas outras, sem qualquer atenção ao transporte metroviário ou coletivo de massa.

No debate, foram apresentados estudos para melhoria da ambiência do atual viaduto da Perimetral, mas que se encontram desprezados. Também não estão sendo considerados estudos acadêmicos sobre o aproveitamento de suas estruturas para a implantação do transporte sobre trilhos.

Chegou-se a conclusão que ninguém conhece e nem teve acesso a qualquer projeto executivo da proposta de demolição da Perimetral, de como serão executadas as obras viárias, de quanto serão seus custos para a população ou de como será feita a proteção dos monumentos que circundam a área, a exemplo do altivo Mosteiro de São Bento (sofreria ele impactos e abalos?).

Assim, qualquer decisão de demolição da nossa Perimetral é, sem dúvida, açodada e autoritária, pois ainda não foi lhe dado nem respaldo técnico, nem social.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sítios arqueológicos no Porto do Rio: revelados, enterrados ou implodidos?


Futuro prédio do BC
Pouco sabemos, ainda, sobre essa riqueza nessa área do Rio. 

Inesperado? Não para todos. O Banco Central do Brasil, que constrói na área, sabe que em seu terreno foi achado importante sítio arqueológico, que ainda não foi revelado ao público.

A existência do sítio arqueológico no terreno do Banco Central não foi nem mesmo esclarecido ao vereadores do Rio. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Perimetral - Uma grande obra de engenharia. Então, por que demolir?

Como a história explica tudo, publicamos abaixo o fantástico depoimento do arquiteto Armando Abreu, ex-subsecretário de Obras e de Planejamento, que lembra à população carioca como e porque esta incrível obra de engenharia, que é o elevado da Perimetral, foi construída.

Esperamos que este relato refresque a memória do poder público, e o ajude a repensar as decisões “irreversíveis” que vêm sendo tomadas.

“Ilma Sra. Dra. Cristina Lodi
MD Superintendente do IPHAN no Rio de Janeiro

Em 1967, quando o Governo do Estado da Guanabara, através da SURSAN resolveu construir o prolongamento da Avenida Perimetral, além do trecho existente entre o Aterro do Flamengo até às imediações da Candelária, verificou-se que o Projeto à época previa um túnel a ser perfurado no Morro de São Bento. 

Consultado o IPHAN, este negou essa possibilidade por falta de garantia de que não haveria abalos no Mosteiro de São Bento.

Depois de várias hipóteses de ligação entre a Praça XV de Novembro e a Praça Mauá, optou-se por um contorno ao Morro por cima do Distrito Naval.

Como eu participei, com sucesso, na remoção do Restaurante do Calabouço e dos Clubes Náuticos afim de permitir a execução do Trevo dos Estudantes e a urbanização de toda a área do Museu de Arte Moderna, obras que foram realizadas em apenas quatro meses, o Secretário de Obras, Raymundo de Paula Soares, me designou como uma espécie de negociador tendo a missão de convencer o Comandante do Distrito Naval, Almirante Jordão, a aceitar a passagem do elevado pela área daquele Distrito.

Quando tudo parecia que seria negado, ao receber uma resposta de que só haveria uma possibilidade de concordância: `só se o Ministro autorizar´.

Corri ao Secretário pedindo que conseguisse uma audiência com o Ministro Augusto Hamman Rademaker, que não só autorizou, como pediu que a obra fosse feita rapidamente.

O trecho da Praça Mauá é uma obra de estética admirável, com um vão central de 93 metros, o maior na época. 

Gostaria de saber se agora o IPHAN já admite a perfuração no Morro do Mosteiro de São Bento para a execução de um túnel que ligará o mergulhão da Praça XV de Novembro ao mergulhão da Avenida Rodrigues Alves.

Atenciosamente

Armando Ivo de Carvalho Abreu

Arquiteto aposentado da Prefeitura da Cidade o Rio de Janeiro
Ex Subsecretário de Obras e de Planejamento.
Coordenador Executivo do PUB-RIO - Plano Urbanístico da Cidade do Rio de Janeiro.
Membro do Conselho Diretor da SEAERJ e Conselheiro do Conselho Consultivo do Centro Cultural da SEAERJ
Membro do Conselho Municipal de Política Urbana – COMPUR”

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Patrimônio Histórico e Cultural - O Morro da Conceição e o Jardim Suspenso do Valongo


O Morro da Conceição e suas cercanias

Desde 2009, quando o Prefeito Eduardo Paes, o Governador Sérgio Cabral e o então Presidente da República Luis Inácio Lula da Silva inauguraram o projeto “Porto Maravilha”, a revitalização do Morro da Conceição, no Centro do Rio, tem sido uma intervenção aguardada com ansiedade pelos moradores da região. 
Tapumes, manilhas de concretos e
carros estacionados estrangulam as calçadas
Hoje, quando caminhamos pelas cercanias do Morro da Conceição, nos deparamos com um enorme canteiro de obras. Assim, ao mesmo tempo em que as obras de drenagem da primeira fase do projeto ocupam quase toda pista de rolamento da Rua Sacadura Cabral, tapumes, manilhas de concreto e carros estacionados estrangulam a passagem de pedestres nas calçadas, obrigando-os a se deslocarem para o asfalto.

Esse cenário caótico é, contudo, tolerado, já que existe a expectativa dos benefícios que essas obras possam trazer.
Ladeira da subida do Morro da Conceição
pela Pedra do Sal
Logo na subida do Morro, nota-se que a ladeira histórica, com piso assentado com pedras, está sendo castigada pelo acúmulo de cimento. Somado a isto, o estado de má conservação permitiu o surgimento de um córrego visivelmente poluído, cheirando a esgoto.

Esse fato se torna mais surpreendente ainda, se levarmos em conta que, dentro do escopo do projeto “Porto Maravilha”, havia um valor inicialmente previsto de R$ 8 milhões, apenas para a recuperação das ladeiras históricas.

(Fonte: Revista Boletim do Porto número 1 da Prefeitura do Rio de Janeiro)

O Jardim Suspenso do Valongo

À noroeste do Morro da Conceição se encontra outro pico: o Morro do Valongo. Nessa região – que, desde 1926, abriga um observatório – situava-se o antigo Cais do Valongo, de triste história por ter sido o principal cenário de comércio de escravos na cidade.

 Jardim Suspenso do Valongo em 2011: Patrimôno histórico  tombado
transformado em depósito de materiais de construção e canteiro de obras
Mais tarde, o local passou a se chamar Cais da Imperatriz e, posteriormente, com as intervenções urbanísticas de Pereira Passos, passou a se chamar Jardim Suspenso do Valongo, tombado pelo município do Rio de Janeiro.

Patrimônio histórico cultural do Rio de Janeiro, o jardim, de estilo romântico, data de 1906 e foi projetado pelo paisagista Luis Rei.

O segundo número do Boletim do Porto, publicação da Prefeitura, a ele se refere como uma “jóia histórica e patrimônio da cidade” e informa que os trabalhos no Morro da Conceição iriam começar ”por uma cuidadosa recuperação do Jardim do Valongo”.

Não foi o que aconteceu: ele foi literalmente transformado em depósito de materiais de construção e em canteiro de obras.

Além disso, moradores da região – como Rosiete Marinho, que procurou nosso gabinete para denunciar essa situação – se queixam da retirada das estátuas que compunham o paisagismo do jardim.

Da mesma forma, Dona Maria Gonçalvez – portuguesa que mora há 42 anos em frente ao Jardim Suspenso – está assustada com a descaracterização do espaço, cujos bancos desapareceram.

As estátuas originais há muito foram substituídas por réplicas, e hoje se encontram no Museu da Cidade, na Gávea.

As réplicas, por sua vez, foram retiradas em razão de atos de vandalismos e, hoje, se encontram no Parque Noronha Santos, situado à Avenida Presidente Vargas.

Existe a previsão de que sejam reinstaladas no jardim, quando as obras forem concluídas.

Jardim Suspenso do Valongo no início do século XX. 
Estátuas de Grandjean de Montigny compondo seu Paisagismo


Jardim Suspenso do Valongo em 2007. 
As estátuas já retiradas

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Um olhar alternativo sobre a Área Portuária do Rio


CMRJ inicia diálogo com a UFRJ

Crédito: Ascom Sonia Rabello
Na próxima segunda-feira, dia 19 de setembro, por iniciativa da vereadora Sonia Rabello, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro inaugurará a exposição “Área Portuária em transformação – olhar alternativo”, produzida pelos alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A intenção é a de promover uma maior integração do Legislativo municipal com a universidade, incentivando a divulgação dos projetos desenvolvidos em sala de aula e que se configuram como alternativas para as questões da cidade do Rio de Janeiro.

Nosso blog conversou com os professores que coordenaram o projeto interdisciplinar, que começou em março de 2010 e já envolve a quarta turma de alunos que cursa o 8º período.

“Começamos trabalhando mais na região próxima à Praça Mauá que, é o primeiro setor de intervenção do Porto do Rio, até a Praça da Harmonia. No segundo semestre de ano passado, continuamos desenvolvendo o projeto nessa região para levantar questões e compreender as dinâmicas atuantes”, afirma o professor de Projetos de Arquitetura, Guilherme Lassance.


Crédito: Ascom Sonia Rabello
Na primeira metade deste ano, professores e educandos partiram para o bairro de Santo Cristo. “Estudamos da Cidade do Samba até a Francisco Bicalho”, acrescenta Lassance.

Já no semestre em curso, os trabalhos visam a discussão da área portuária como um todo.

A soma de conhecimentos compatibilizando propostas

Ao longo deste processo, agregaram-se conhecimentos específicos de cada uma das partes que constituem a área estudada, envolvendo as disciplinas Planejamento Urbano (Professor Cristóvão Duarte), Projeto de Arquitetura (Professor Guilherme Lassance) , Projeto Paisagístico (Professora Ivete Farah) e Técnicas de Apresentação de Projetos (Professor Alexandre Pessoa).

Crédito: Ascom Sonia Rabello
Desta forma, observa o professor Guilherme, a experiência tem sido valiosa, não somente para a promoção da interatividade entre os alunos, mas também para, em sala de aula, fundamentar argumentos e ideias a respeito de propostas desenvolvidas para o Rio de Janeiro.

“Nossa grande ambição é esse embate com as questões relacionadas com uma área já consolidada da cidade, com certa complexidade inerente ao sítio, e também a questão do trabalho em grupo, com diferentes visões.

Provocamos a discussão de projetos que não resultam de ações independentes umas das outras, mas sim de planos coletivos da turma. Isso obriga os alunos a aprenderem a negociar para que ocorra a compatibilização das propostas, reproduzindo as características de um projeto urbano numa área tão extensa como a que estamos trabalhando”, relata Guilherme.

Propostas alternativas para a realidade da cidade

O trabalho dos professores e alunos aproveita o momento de término do curso a cada semestre e busca também, na medida do possível, prestar serviços à sociedade por meio de propostas que tenham um “pé na realidade” e consigam apontar alternativas para questões da cidade.

Em 2010, o grupo de professores e alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UFRJ criou uma alternativa à demolição do Elevado da Perimetral, no Centro do Rio.

Segundo a proposta, o viaduto continuaria de pé e serviria de base para a circulação de um trem que ligaria os aeroportos Santos Dumont e Tom Jobim, passando pela Ilha do Fundão. Movido a energia elétrica, o veículo faria um percurso de 20 quilômetros entre os aeroportos.

Um dos objetivos era fazer com que a Perimetral deixasse de ser um ícone do rodoviarismo, e se transformasse no símbolo de uma cidade que aposta no transporte coletivo. Em determinadas partes, o concreto seria retirado, e o monorail circularia sobre uma estrutura vazada, o que garantiria a passagem da iluminação natural. Além disso, seriam criados jardins suspensos em alguns pontos do viaduto.

Uma solução economicamente viável e mais em conta do que a demolição, prevista pela Prefeitura, no cronograma de obras para a região.

A cada semestre, novas discussões e olhares

Crédito: Ascom Sonia Rabello
Os debates são sempre retomados, a cada período, questionando as premissas dos semestres anteriores e abrindo espaço para novas ideias para o Porto.

Atualmente, os alunos dedicam-se a pensar a grande escala da região portuária como um todo, enfrentando o desafio de tratar a dimensão territorial de forma global, ao contrário de períodos anteriores em que os trabalhos eram setorizados e as ações pontuais fomentadas.

A questão da paisagem, segundo a professora de Projeto Paisagístico, Ivete Farah, tem sido trabalhada não somente localmente, mas também por meio de articulações do sítio com a estrutura maior do projeto.

“Trabalhamos sempre em função da ideia do sistema dos espaços livres, e como isso é articulado com a cidade. Fazemos um grande esforço de priorizar a questão ambiental, considerando a água e a estrutura verde como bases fortes do projeto urbanístico”, afirma.

Serviço:

Exposição “Área Portuária em transformação – olhar alternativo”
Abertura: 19/09/2011 às 18h30
Duração: 19 a 30 de setembro de 2011
Endereço: Saguão José do Patrocínio do Palácio Pedro Ernesto
Câmara Municipal do Rio de Janeiro – Praça Floriano, s/nº
Cinelândia – Rio de Janeiro


Veja mais sobre a programação aqui.



Confira ainda sobre a exposição neste vídeo feito em sala de aula, com o professor Cristóvão Duarte :






segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Calatrava e o Museu do Amanhã.

Quem será? Qual será?

Foto computadorizada mostra como deve ficar o Centro do Rio
depois de pronto o Museu do Amanhã. (Divulgação)
As obras de “revitalização” da região portuária do Rio impressionam por uma dupla grandiosidade: a dos projetos e a da falta de planejamento.

A "Veja Rio" desta semana nos dá notícias do Museu do Amanhã que, a princípio, deveria estar finalizado em agosto de 2012, quando acontece, na cidade, a Rio +20 - a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. Deveria, mas não estará.

O motivo: desde que foi apresentado, em fevereiro de 2010, o projeto – uma grande estrutura futurista de autoria do arquiteto espanhol Santiago Calatrava – tem sofrido revisões e alterações e, no momento, encontra-se parado.

Segundo a revista, o problema da vez está relacionado às placas do teto ondulado do museu, cujas engrenagens só são fabricadas por uma empresa de confiança de Calatrava, que cobra um preço absurdo para confeccioná-las.

E mais: “o número de eixos previsto no desenho original, que era de 42, foi reduzido a dois, e a prefeitura neste momento procura um novo fornecedor”.

Os custos do projeto do Museu do Amanhã dobraram desde a sua apresentação e, agora em maio, sofreram nova majoração. (Confira aqui)

Do acima exposto, podemos concluir: mais do mesmo Santiago Calatrava, protagonista de histórias recentes, cujos desfechos são, no mínimo, polêmicos, segundo notícias publicadas fartamente em jornais espanhóis.

Para o jornal espanhol "El País" de 10/06-2011, Santiago Calatrava – nascido em Benimamet, Valencia, 1951 – tem maravilhado o mundo não só com suas obras, mas também por sua capacidade de gerar controvérsia por onde passa.

Suas obras surpreendem pelas formas impressionantes que nelas imprime e, também, pelos processos judiciais de que são objeto. (Confira neste link)

De acordo com o mesmo jornal, a última batalha judicial em que Calatrava esteve envolvido está relacionada com a construção em Oviedo (Principado de Astúrias) do Palácio de Congressos e Exposições.

Em agosto de 2006, um desmoronamento de parte da estrutura do edifício causou feridas leves em três trabalhadores e condenou Calatrava, seu escritório valenciano Hoc Signo Vinces, a promotora Fiaga e a subcontratada Esdehor a pagarem três milhões e meio de euros à seguradora Allianz.

O incidente foi atribuído a "um problema de projeto, direção e execução" da obra, imputável ao escritório de arquitetura. Além disso, alegou-se na vista do processo que "o pessoal era insuficiente”.

O escritório de arquitetura, por sua vez, atribuiu o acidente à construtora. Nessa brincadeira, Calatrava cobrou sete milhões de euros pela direção do projeto. E não compareceu ao depoimento que foi chamado a prestar à justiça, tudo segundo as notícias referidas.

O complexo de Calatrava em Oviedo – obra privada mais cara já realizada em Astúrias (79 milhões de euros) que reúne um centro comercial, um hotel quatro estrelas, as secretarias de Cultura e Saúde do Principado de Astúrias e um estacionamento subterrâneo –, desde o início, causou controvérsias por sua localização, espremido entre edifícios e visível apenas das zonas altas da cidade, e pela desproporção de seu tamanho em relação ao espaço onde foi erguido.

Calatrava recebeu 1,5 milhão de euros da Prefeitura de Oviedo por três projetos não executados, pois foram vetados pela câmara de vereadores local: o Palácio das Artes, a Faculdade de Belas Artes e o que seria a nova prefeitura municipal.

Fora de Oviedo, os problemas também pipocam: em Bilbao, a passarela de Zubizurri ficou mais conhecida como “passarela dos tombos" e a intervenção feita pelo arquiteto no aeroporto de Loiu eliminou a área de passageiros. Em Veneza, a ponte sobre o Grande Canal, projetada por ele, custou 11 milhões de euros. Sua inauguração, em 2008, foi feita na surdina, pois os temores de desmoronamento causaram polêmicas.

Para o "El País", Calatrava é “um verdadeiro profeta em sua terra”, pois não lhe falta o apoio dos governos do PP (partido de direita) para que, na Comunidade Valenciana e nas Baleares, suas obras proliferem concomitantemente com o aumento de seus custos.

Em março de 2006, o partido político Esquerra Unida denunciou a Generalitat (governo da Comunidade Autônoma) por assinar contrato, sem concorrência, com o arquiteto para o projeto e a construção de um Centro de Convenções em Castellón que custaria 60 milhões de euros.

Por essa empreitada, Calatrava teria cobrado 2,7 milhões. Somem-se a este, dois outros “projetos fantasmas” do arquiteto: um arranha-céu perto da Cidade das Artes e das Ciências de Valência e uma intervenção no porto de Torrevieja. Ambos foram paralisados. Pelas três empreitadas. Calatrava embolsaria 5,8 milhões.

Como se vê, as obras e as estripulias de Calatrava são muitas. Sempre de acordo com o "El País", a Cidade das Ciências e das Artes, sua obra espanhola mais famosa, “deveria custar 150 milhões de euros, mas o PP a modificou e passou a ser orçada em 308 milhões. Finalmente, 16 anos depois, o custo multiplica por dez o inicial, chegando a 1,282 bilhão de euros”.

Voltemos à questão que nos interessa: o Museu do Amanhã. Sabemos que o custo de seu projeto foi dobrado e majorado e que os eixos de sustentação de seu telhado serão reduzidos de 42 para dois. Isto posto, resta-nos perguntar: quem garante que a conta não ficará mais salgada e que a obra primará pela segurança, já que seu arquiteto vem cometendo temeridades estruturais mundo afora?

Sabemos que, até agora, já foram desembolsados pela Prefeitura R$ 26.692.290 para pagamento do prestação de serviços de desenvolvimento do projeto do Museu do Amanhã. E que estão empenhados R$ 2.965.810 para o mesmo fim.

Esses recursos, que perfazem um valor total de R$ 29.658.100, estão fundamentados no critério da inexigibilidade, ou seja, executados sem licitação. Ou seja, só para o projeto, cerca de 12 milhões de euros provenientes de recursos públicos da Prefeitura.

Até agora é esta a conta. Mas, quanto custará a obra deste famoso arquiteto estrangeiro?

Como controlar no orçamento a ser aprovado pela Câmara? Isto será de responsabilidade dos vereadores do Rio!

Saudades dos arquitetos nacionais!

Confira ainda os dados do contrato de execução financeira do projeto do Museu do Amanha aqui.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Habitação social como prioridade a ser garantida


Prover habitação de interesse social é hoje um ponto central na administração das cidades. E, para a população de baixa e média rendas, cabe ao Poder Público fazer com que, por meio do planejamento urbano, ela seja assegurada pelo mercado. Se não for, é função do governo suprir este vácuo. As leis fazem parte deste processo público.

Por isto, ontem (12/7), o "Diário Oficial" do Legislativo Municipal publicou o projeto de Lei 1047/2011, de minha autoria, propondo que, na Área de Planejamento – AP1 da zona portuária do Rio de Janeiro, seja reservado à habitação de interesse social um percentual mínimo de 10% das receitas arrecadadas pela venda dos CEPACs, bem como 10% da área para o mesmo fim. Confira o projeto. (clique aqui)

A área portuária é onde se desenvolve o projeto do Porto do Rio, capitaneado pela Prefeitura do Rio, que lá desenvolve uma chamada “Operação Urbana”. Este projeto, para ser de vanguarda e realmente maravilhoso, teria que prever áreas para habitação de interesse social.

Como ainda não o fez – e já se começam a divulgar outros projetos de grande magnitude (Vila Olímpica, Mila de Mídia, superprédio acima da rodoviária), que tendem a induzir para o alto o valor de acesso à terra – a reserva de área para habitação social se impõe. Caso contrário, tudo acabará como sempre: a concentração das áreas mais nobres e centrais nas mãos dos que detêm mais renda.

A expulsão, pela remoção da população que lá vive, já começou. Mas as reuniões que lá se realizam, visando a proteção de suas moradias, não passarão de tentativas de enxugar gelo enquanto o compromisso pela habitação social não estiver explicitamente inserido no projeto do PORTO DO RIO. Ainda não está. Nem uma palavra foi dita sobre isto no projeto vencedor do concurso do IAB-RJ. Tudo é suposição e discurso. 

Caso a intenção de se assegurar minimamente área e recursos para habitação social seja verdade, o Governo Municipal não só não obstará o andamento do nosso projeto, como também dará apoio a ele, aumentando o percentual para este fim.
O mesmo se espera da Caixa Econômica Federal, hoje detentora da totalidade do potencial construtivo da região. Afinal, a Caixa é ou não é um banco social?

terça-feira, 28 de junho de 2011

Porto do Rio: será mesmo uma “Maravilha”?


Serão divulgados, hoje, pela Prefeitura, os resultados do Concurso Porto Olímpico que visa selecionar os projetos da Vila de Mídia, a Vila Olímpica e Hotel 5 estrelas na área portuária.

A verdade é que os projetos vencedores que se farão conhecer referem-se aos grandes blocos de edificações a serem construídas na área portuária, e que engloba uma grande área de terra no local. Porém, continuaremos sem conhecer qual o projeto urbanístico para a região do Porto do Rio de Janeiro !

Projeto urbanístico é diverso de projetos de blocos de edificações: o projeto urbanístico para a área é macro, e os projetos de vilas são micros. Como projetar o micro sem as diretrizes do macro?

Os projetos arquitetônicos das Vilas, ainda que necessários para a ocupação olímpica, devem estar incluídos em uma proposta de Operação Urbana que, nos termos do Estatuto da Cidade, visa estabelecer um mix de parâmetros urbanísticos que compensem o aproveitamentos de toda a área, distribuindo encargos entre a infraestrutura geral necessária, as áreas verdes, as áreas livres, as áreas comerciais de grandes ganhos, as áreas residenciais de média renda, e as áreas residenciais destinadas à habitação social. Onde está tudo isto delineado pelo Poder Público?

Se está, ainda não foi divulgado. Não está transparente. O que está transparente, hoje, é a divulgação de uma disputa pela ocupação fundiária de grandes projetos, como o do terreno da rodoviária.

Mas, a cada vez que se fala no projeto do Porto do Rio, temos que denominá-lo pelo codinome, dado pela Prefeitura de “Porto Maravilha”. Porém, todas as vezes que a expressão “Porto Maravilha” é pronunciada, ou escrita, vem-me à mente o quanto ela encerra de paradoxal e contraditório.

O que há de maravilhoso num projeto de grande envergadura, que envolve recursos públicos vultosos tendo por objetivo “fazer bonito para inglês ver”, e prescinde de fundamentos urbanísticos essenciais?

Uma vez repetida à exaustão, a expressão “Porto Maravilha” ofusca a inexistência de conteúdos que possam legitimar as obras como ações do poder público em benefício da população.

Estranha e esperta estratégia de marketing do Executivo Municipal, que induz ao equívoco e afasta, da parte dos crédulos, qualquer suspeita, e aos mais céticos, provoca constrangimento. Certa vez, J. G., um político que teve papel de conseqüências catastróficas na Segunda Grande Guerra mundial, afirmou: Uma mentira repetida cem vezes torna-se verdade.

No caso do Porto do Rio, pelo sim ou pelo não, devemos evitar a propaganda adiantada, para que, em razão dela, não deixemos de realizar os pressupostos de planejamento público, essenciais para que essa região do Rio se torne realmente uma maravilha. Antes disto, o “projeto” do Porto do Rio será apenas uma expectativa, à espera de um projeto urbanístico público, inclusivo e realmente moderno.

Confira o Edital e o Termo de Referência do concurso Porto Olímpico.